Dom de revelação: cartas a Anne (2)

Cara Anne,

Fiquei um pouco preocupado quando você me disse, em resposta à carta anterior, que não acolheu a minha sugestão de pedir orientação ao seu pastor sobre os dons espirituais. Você disse que, depois de analisar bem, reparou que ele está mais preocupado na reforma do templo que em cuidar das almas. Conhecendo as ADs há tanto tempo, não tenho como afirmar que você está errada, mas a questão não é essa. 

Você faz parte da igreja há poucos meses, e uma situação de conflito já se instalou. Você quer exercer o seu dom com liberdade e encontrou uma barreira justamente na pessoa que deveria cuidar de sua alma e orientá-la. Mas há algumas coisas que você precisa entender primeiro.

Para começar, como você já deve ter percebido, nem você nem o seu pastor estão em julgamento aqui. Até porque estou ouvindo apenas o seu lado da história e não conheço o seu pastor. Não duvido que você me passou as impressões que de fato teve dele, porém essas impressões podem não ser totalmente corretas. Eu mesmo costumo me enganar bastante com as pessoas. Sou um péssimo julgador de caráter. O que estamos discutindo aqui é o seu dom, que analisaremos em detalhes nas próximas cartas.

Uma coisa que você ainda não deve saber sobre dons espirituais é que eles, apesar do nome, não tornam o seu portador mais espiritual. Outra coisa é que eles também não são concedidos a alguém por ele ser mais espiritual que os outros. Você já deve ter lido a Carta aos Coríntios. Os crentes da igreja de Corinto deixavam muito a desejar no que diz respeito à conduta cristã, mas possuíam todos os dons que o apóstolo Paulo conseguia lembrar. As duas situações estão aí: crentes carnais, como chamamos, receberam todos os dons espirituais que podemos relacionar e não se tornaram melhores depois disso. Em nossos dias e desde muitos séculos, temos igrejas que não aceitam a atualidade desses dons, mas isso não impede que os seus membros sejam pessoas espirituais. Conheço muita gente assim.

O que torna você uma pessoal espiritual é o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, amabilidade e domínio próprio. Observe que tudo está ligado à conduta cristã. Então, a espiritualidade se mostra em nossa maneira de agir. Agimos com amor? Temos paciência com as falhas alheias? Sabemos refrear os nosso impulsos? Se não há em nossa vida traços dessas virtudes, não importa quantas profecias entreguemos, quantas curas realizemos ou quantas coisas verdadeiras revelemos, não somos pessoas espirituais. Simples assim.

Digo isso porque a minha preocupação é que você seja antes de tudo uma pessoa espiritual. Ainda que o seu dom seja verdadeiro (e você tem algumas dúvidas a respeito disso, que discutiremos mais tarde) e ainda que você desenvolva esse dom até se tornar um referencial na igreja, nem por isso você será uma pessoa espiritual. A espiritualidade, portanto, se desenvolve nas atitudes.

Por isso, insisto em que você aceite o meu conselho: procure o seu pastor e peça a ele alguma orientação sobre a questão dos dons espirituais ou sobre o seu dom em particular. Mesmo que não tenha uma boa impressão dele e mesmo que esteja certa sobre isso, não deixe passar essa chance de ser espiritual. Além disso, você pode ter uma boa surpresa. E, se não tiver e as suas suspeitas se confirmarem, ninguém poderá dizer que você não tentou. Se não tentar e a situação tiver de ser resolvida em alguma reunião, por exemplo, você não terá razão alguma. Seja espiritual e acredite: isso vale mais que o seu dom.

Em Cristo.

Judson.

Dom de revelação: cartas a Anne (1)

Cara Anne,

Recebi o seu e-mail, no qual você expressa o desejo de entender um pouco mais a situação que está passando e de submetê-la a um “novo olhar”. Agradeço desde já o fato de você permitir que eu lhe responda em carta aberta, a fim de que outros leitores em dúvida também sejam beneficiados — isso se a minha resposta for de alguma ajuda, é claro.

O que motivou você a me escrever foi o meu artigo O verdadeiro dom de revelação, em que relato um episódio da vida do missionário Orlando Boyer, que ouvi de uma pessoa que viveu os tempos áureos do pentecostalismo brasileiro e em quem deposito a maior confiança.

Como você pertence à mesma denominação em que me criei, a Assembleia de Deus, não vejo necessidade de discorrer sobre a atualidade dos dons espirituais. Eu e você cremos nisso, e vamos partir daí. Se por algum motivo eu tiver de justificar a minha convicção, não terei problema em fazê-lo. Mas antes de prosseguir é melhor esclarecer o que quero dizer com “dom de revelação”.

Não uso o termo técnico, que seria “dom da palavra de conhecimento”, conforme o jargão bíblico. É o conhecimento obtido de uma forma que não seria possível por meios puramente humanos — o pastor Boyer não tinha como receber aquela informação exceto por meio sobrenatural. Existe algum debate em torno dessa definição, mas são questões secundárias. Quero dizer apenas que usei propositadamente a expressão popular, que não existe na Bíblia nem é reconhecida nos livros mais técnicos, mas se refere à mesma ideia.

Quase desnecessário dizer que esse dom é um dos mais abusados e um dos menos compreendidos. Digo sem medo de errar que quase todas as “revelações” ocorridas em nosso meio são fraudulentas, e até por parte de pessoas bem-intencionadas! Não é à toa a grande confusão em torno desse dom — e de todos os outros, na verdade. Na página em que acompanho as estatísticas do blog, é comum aparecerem frases como: “O que é dom de revelação?”; “Como faço para saber se tenho dom de revelação”, e assim por diante. Por isso, o primeiro incentivo que lhe dou, embora não seja algo para comemorar, é que você não é a única que tem dúvidas sobre o assunto.

Achei que devia explicar isso porque você tem menos de um ano de fé e já entrou numa ciranda de ações e palavras que trouxeram confusão à sua mente. Sugiro que você procure ler alguma coisa sobre o assunto, enquanto vamos conversando. Nesse caso, dispense a Internet, porque só aumentará a confusão. Nas páginas aleatórias que for abrindo, você irá deparar com várias posturas teológicas em torno do assunto e, naturalmente, ideias conflitantes. Além disso, talvez você não esteja preparada para identificar as asneiras que se dizem sobre o tema, seja qual for a vertente doutrinária.

Como percebi pelo seu e-mail que está havendo certo atrito entre você e o seu pastor, sugiro que peça a orientação dele quanto à melhor leitura sobre o assunto. Com isso, talvez o antagonismo diminua e ele perceba que você tem o sincero desejo de aprender e de fazer a coisa certa. É claro que ele irá recomendar uma obra pentecostal, e é o que você deve ler por enquanto. Não por ser o único tipo recomendável, mas pelo fato de ser esse o ponto de partida natural para uma jovem assembleiana.

Bem, a carta está ficando longa, e vou parando por aqui. A partir da próxima carta, iremos tratar mais diretamente das suas dúvidas.

Em Cristo.

Judson.