O valor de servir (reedição)

Em fevereiro de 2009, tomei um ônibus para Joinville. Ia visitar a minha mãe e também falar com uma pessoa a respeito de um antigo projeto editorial. Atrás de mim, sentaram-se dois falantes exemplares da terceira idade, um homem e uma mulher. Fiquei escutando a conversa deles. (Sim, tenho esse saudável hábito. Para segredos, sou um túmulo, mas na captação de conversas alheias estou mais para cova coletiva.)

Os dois não se conheciam. Após se apresentarem, partiram da senhora as inevitáveis perguntas sobre o estado de saúde do companheiro de viagem, que em geral resultam num relatório de doenças. Não houve exceção aqui. Ele informou:

— Tive dois derrames há poucos meses.

Contou também que era hipertenso e sofria de artrite.

— Tem catarata? — perguntou ela, buscando naquela fonte promissora algo com que tivesse mais afinidade.

— Foi retirada.

O assunto passou então ao motivo da viagem, mais uma vez por iniciativa da anciã, de 71 anos (ele tinha 72). Ele revelou que estava indo para Indaial, em Santa Catarina, a fim de buscar um remédio feito à base de ervas para a esposa cancerosa. Ele não depositava nenhuma fé naquele tipo de medicamento, mas a esposa se sentia melhor com ele. Explicou também que poderia pedir o remédio pelo correio, mas preferia ir buscá-lo pessoalmente, uma rotina repetida, mês a mês, havia nove anos.

Então, em resumo, era isto: um homem com a saúde debilitada empreendia todos os meses uma viagem dispensável a fim de comprar para a mulher cancerosa um remédio em cuja eficácia ele não acreditava.

A explicação? Ouvi-a também durante a conversa: ele queria fazer algo pela esposa doente, e “as coisas têm mais valor quando há serviço”.

A justa lei da selva

Estive em Angola no ano de 2004, e um amigo meu, o missionário Isaías Pereira dos Santos, levou-me para conhecer uma feira realizada em plena selva, embora não muito longe de Luanda.

Deparei com dezenas de barracas montadas entre as árvores, muitas delas aproveitando a própria galharia. Na seção de carnes, a menos recomendável, moscas disputavam o espaço com pedaços de animais, cujo estado de conservação variava do quase fresco ao apodrecido. Em corredores mais respiráveis estavam as frutas, condimentos, verduras e legumes. Em outras barracas, uma variedade de produtos artesanais, roupas nova  de produção local e usadas, mas em ótimo estado, provenientes dos Estados Unidos, e até aparelhos eletrônicos, CDs e DVDs.

Constatei que o lugar contava até com uma infraestrutura para atender a certas necessidades. Num ponto não muito distante das barracas, duas pequenas cabines de lona, praticamente coladas uma na outra, serviam de banheiro a um preço módico. Mas o sistema de cobrança é que era interessante.

Quando alguém solicitava o serviço, a pessoa responsável pelas cabines perguntava com ar muito sério:

— É o maior ou o menor?

E o usuário pagava conforme o que fosse produzir lá dentro.

The Blue Boy

Depois de muitas remarcações e promessas não cumpridas, finalmente consegui uma pequena folga do trabalho e fui visitar o meu primo Dilton em Florianópolis. Ele é o mais velho de seis primos, filho do Tio Ézio, irmão do meu pai, e tenho por eles a consideração de irmãos, porque fomos criados  juntos em Jaguaruna.

Estávamos a caminho da casa de uma prima, para o primeiro de vários reencontros que tive em agradáveis três dias de convivência com a parentela amiga. Na última terça-feira, dia 31, o roteiro nos conduziu até uma localidade denominada Bica d’Água, que exigia o desvio por uma estrada secundária  pavimentada de paralelepípedos.

O local é característico do interior, embora situado quase à beira-mar, com casas típicas da colonização portuguesa. Dirigindo em velocidade de passeio, o bastante para apreciar as atrações do caminho e conversar ao mesmo tempo, avistamos, uns cem metros à frente, um menino, que aparentava uns 11 anos de idade e vestia camisa azul e bermuda de cor clara (daí o nome do título, sugerido pelo meu primo). Estava lidando com uma cerca de sarrafos, que de repente caiu sobre ele.

Iniciou-se sob a armação de madeira uma estranha coreografia de pernas e braços, um esforço quase desesperado do garoto para recuperar a liberdade de movimentos. Eu e o meu primo, então, fizemos o que duas pessoas de boa índole costumam fazer nessas situações: diminuímos a velocidade do carro e ficamos observando, sem perder um segundo daquela inesperada diversão. Por fim, o garoto conseguiu se desvencilhar da cerca. Ficamos felizes por ele, claro. Apenas lamentamos nenhum de nós dois ter lembrado de tirar uma foto.

Mão armada, mão desarmada

Eu estava indo para uma reunião na Central Gospel, no Rio de Janeiro, e ao passar diante do Campo dos Afonsos o taxista começou a relembrar os tempos em que servira naquela base militar. Ele então me apontou uma guarita e disse que havia tirado serviço de guarda algumas vezes ali.

Na esteira das informações que eu não havia solicitado, contou-me a embaraçosa experiência de um colega de farda que certo dia estava de guarda na mesma guarita.

O soldado observava a rua, um tanto entediado, quando em certo momento viu andando pela calçada uma moça que chamava a atenção pelos peitos “extravagantes”. (Foi a primeira vez que ouvi esse adjetivo associado a essa parte da anatomia feminina, mas no decorrer da conversa descobri que o taxista era membro de uma dessas igrejas missionárias, daí o cuidado com o vocabulário.)

A moça então, para deleite do guarda, parou diante da guarita e acenou para ele, dizendo que queria uma informação. O rapaz imediatamente abandonou o posto e veio conversar com ela, animado com a oportunidade de conferir mais de perto a extravagância da moça.

Mas a alegria dele acabou aí. Quando estavam bem perto um do outro, ela sacou um revólver ou uma pistola e assaltou o soldado. Tomou a arma dele e seguiu seu caminho, enquanto o rapaz retornava arrasado para a guarita, pensando na explicação que teria de dar ao comandante da guarda quando se apresentasse a ele sem a arma.