O mundo na igreja, outra jabuticaba assembleiana

Cheia Rio do Sul

A foto aí em cima é do Diário Catarinense e mostra a enchente que atingiu na semana passada a cidade de Rio do Sul, em Santa Catarina, e ainda não terminou. Não é grande novidade, porque as enchentes nessa região do estado são famosas. Mas vi ao fundo um templo evangélico invadido pelas águas do rio Itajaí-Açu e lembrei-me de um tema recorrente da AD dos meus tempos de criança e de juventude e que, como o rio invasor, ainda não se escoou totalmente. Obreiros zelosos de ternos puídos e teologia ainda mais pobre bradavam do púlpito contra o perigo de o mundo entrar na igreja. Se isso acontecesse, alertavam, a igreja se tornaria morna e, como Laocideia, seria vomitada por Deus.

Não dá para discordar dessa ideia, em princípio, porque um igreja tolerante com o pecado e aberta a teorias e práticas mundanas não terá como justificar a sua existência. É demais para o estômago divino. Aqueles arautos da santidade, porém, não se referiam a isso. E nem é preciso ser assembleiano para saber a que eles se referiam.

Nenhuma moça daquela época teria coragem de aparecer no culto de domingo com as unhas pintadas, mas quando algumas começaram a usar esmalte natural, isso foi motivo para reuniões de ministério. Moça de cabelo cortado, ainda que só as pontas, era mundana. Rapaz com cabelo cobrindo parte da orelha, idem (deve existir um dossiê desta ovelhinha em algum lugar). Em algumas congregações, o mundo se insinuava na igreja pela via agradável do perfume. Sim, conheci pastores que gostariam de ver em cada frasco de Toque de Amor a advertência: “Isto pode destruir a sua vida espiritual”. Entre os anátemas, variando conforme a época e a cabeça de cada líder, estavam ainda a presilha de cabelo, o bigode, as calças jeans, o estudo teológico, a bicicleta (para mulheres), e assim por diante.

Mas o mundo entrou mesmo na igreja, instalou-se confortavelmente no berço esplêndido da denominação. Não me reporto, é claro, às coisas que acabei de citar, mas daquilo que de fato vai paralisando a igreja, assim como a enchente impede os serviços do templo. Enquanto se guerreavam mosquitos, os camelos ocupavam o território sagrado sem impedimento algum.

Vamos citar uns poucos exemplos, o leitor lembrará outros. O dízimo gordo compensa pecados cabeludos (estes agora no sentido metafórico). Os políticos mundanos têm trânsito livre nos gabinetes pastorais para os seus conchavos, e os “representantes” da igreja fazem a mesma coisa. O ministério acolhe sem remorso meros apadrinhados, confere título pastoral a burocratas e acoberta colegas fugidos de outros campos em condições no mínimo suspeitas. A unidade se desfez em dezenas de siglas e em partidarismo feroz, e nisso se perdeu a comunhão fraternal.

Por incrível que pareça, há quem ainda culpe o esmalte e a presilha de cabelo. Lembram-se quando o presidente da Convenção Geral pôs a culpa da falta de espiritualidade da denominação nos “samaritanos“? Pois é. Eis aí a nossa jabuticaba. Ainda para muitos líderes assembleianos, o mundo que ameaça a igreja é feito de plástico e de tinta. Enquanto isso, afogam-se nos próprios erros e deixam o rebanho desabrigado.

A “doutrina”, outra jabuticaba assembleiana

Meu amigo Esequiel Carvalho, era admirado por suas ótimas pregações e também por ser um sujeito simples e cordial. Tinha um “defeito”, porém: não se adequava muito bem ao regime espartano da AD das décadas de 1970 e 1980. Ele me contou que certa vez um membro da igreja o definiu desta forma: “Muito bonzinho, mas não tem doutrina”. Queria o zeloso irmão dizer que o meu amigo era boa gente, mas era negligente com os costumes da igreja. Provavelmente, queria dizer também que ele não era salvo.

Ninguém estranhava tal conceito porque, no vocabulário assembleiano, o termo “doutrina” acabou se cristalizando como sinônimo de usos e costumes, a ponto de ter precedência sobre o significado óbvio, que é a doutrina bíblica. Com isso, a doutrina “visual” acabou virando a pedra de toque da espiritualidade — as exterioridades definiam melhor o crente do que as suas virtudes. Vamos esclarecer: estas não eram ignoradas, mas aquelas eram imprescindíveis.

Essa perversão semântica, como é natural, levou a uma inversão de valores. Assim, era mais fácil perdoar o adúltero do que a moça que cortava o cabelo. Fazia-se vista grossa ao trapaceiro, mas não havia clemência para quem usava bermuda. Mas nem vamos enveredar por esse caminho.

É certo que, oficialmente, a denominação sempre distinguiu usos e costumes de doutrina bíblicas, ou pelo menos reconheceu a existência dos tais, quase sempre reforçada pela expressão “bons costumes”. Essa alegada benignidade, entretanto, nunca foi explicada de maneira convincente. Existe até um livro, publicado pela CPAD, da autoria de Antonio Gilberto, que me parece uma tentativa de dar uma resposta definitiva ao assunto, porém resultou num monumento à enrolação (explicar isso exige um artigo à parte, e o farei, se necessário).

A verdade é que essa mania de confundir doutrina com costume (ou com regimento interno) trouxe prejuízos incalculáveis à denominação. E, embora eu tenha usado o verbo no passado nos parágrafos anteriores, a verdade é que mesmo hoje, com as Assembleias de Deus mais “evoluídas”, a confusão não se desfez, e em milhares de arraiais costume ainda é doutrina, e doutrina, pouco mais que um acessório espiritual. Essa jabuticaba não vai desgrudar do tronco tão cedo.

O evangelista, outra jabuticaba assembleiana

Pela nomenclatura bíblica, a hierarquia das Assembleias de Deus no geral consiste, em escala ascendente, de diácono, presbítero, evangelista e pastor. Os dois primeiros e o último pelo menos guardam alguma relação com a proposta original, embora na prática ministerial as discrepâncias sejam evidentes, e pretendo apontá-las em outras postagens. Mas eu quis começar pelo evangelista, por ser a patente que sempre me pareceu a mais esquisita, por várias razões. E também por oportunismo, já que a lição da EBD de domingo fala sobre esse assunto (do ponto de vista bíblico, não assembleiano).

Para começar, diferentemente do diácono, do presbítero e do pastor, o evangelista não tem função específica na denominação a não ser esperar a promoção ao posto de pastor. Os evangelistas não podem ser tidos por estagiários nem por aspirantes, no sentido restrito do termo, porque são considerados ministros (e nem vamos nos deter agora para descobrir por que os diáconos e os presbíteros não são). Também não é uma designação reservada aos missionários ou a obreiros dedicados exclusivamente à evangelização, o que pelo menos preservaria um resquício de lógica.

Via de regra, os evangelistas já são pastores de fato, mesmo antes da promoção — ou consagração, como se costuma dizer nesses casos. Os direitos são os mesmos, exceto pelo fato de não poderem assumir a presidência de nenhuma igreja. Soube que o pastor Alcebíades Pereira de Vasconcelos (1914-1988) aboliu os cargos de presbítero e evangelista da AD de Manaus. Consagravam-se ali apenas diáconos e pastores, o mais próximo que teríamos do ideal bíblico, descontado o ranço denominacional. Não sei se ainda é assim.

Tenho a impressão de que algumas convenções passaram ver o posto de evangelista como um teatro de manobras político-administrativas. Conheço um evangelista que espera há vinte anos a promoção a pastor, mas a presidência da igreja não o libera porque percebeu que havia introduzido no ministério um sujeito não muito honesto. Para não dar o braço a torcer e demiti-lo, mantém-no como ministro assalariado. Para contê-lo-lo, recusa-se a colocar o seu nome na lista dos novos pastores. Para quem tem apenas visão de carreira, o posto pode se tornar importante moeda de troca em época de eleições convencionais.

Imagino que haja algumas variantes estatutárias no mar de papel em navegam as convenções, mas em suma, sob a luneta política da denominação, o evangelista é o barquinho que já apontou na baía do ministério, mas ainda não aportou no pastorado.

Ainda sobre os avisos nos cultos da AD

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Ontem, falei dos avisos nos cultos assembleianos (leia aqui), uma de nossas jabuticabas. Outro fenômeno comum no decorrer daqueles cansativos minutos, que numa tradição católica romana bem poderiam contar como penitência, é que todo mundo parece lembrar que tem algo importante a comunicar à igreja justamente naquela hora.

O ritual não litúrgico tem início quando alguém começa a dar os avisos, e então um crente sai do seu lugar e chama um dos quarenta obreiros que estão no púlpito para passar a mensagem ao responsável por transmitir as informações ao rebanho.

Às vezes, uma pequena fila se forma junto à plataforma, e um rudimentar sistema de comunicação, nem sempre dos mais eficientes, com idas e vindas, interrupções, confirmações e correções, é estabelecido em questão de segundos e se estende até muito além dos que os outros crentes estão dispostos a encarar e só o fazem por educação. Parece aquela situação em que um adolescente vai urinar e todos os outros sentem vontade também.

Temos ainda os que burlam o sistema e vão diretamente à pessoa que está ao microfone, pouco importando se ela está no meio de outro aviso ou se já terminou. Pode ser impressão minha, mas o maior número de interrupções diretas ocorre quando o pastor-presidente assume a tarefa. A cada sete segundos um obreiro se aproxima para acrescentar algo muito importante: “O presbítero Adaílton está lembrando a oração dos irmão amanhã à noite, como acontece todas as segundas-feiras”. E quando parece não haver mais nada a comunicar, o povo ainda sofre um último arrepio quando o pastor pergunta: “Mais alguma coisa?”.

E eu pergunto: parece a sua igreja?