Meu pé de cerejeira

No início da década de 1970, eu costumava passar, a caminho da escola, por uma grande cerejeira que havia perto da estação do trem, em Jaguaruna. Às vezes eu me detinha ao pé da árvore para colher algumas daquelas frutinhas escuras, que lembravam uma beringela em miniatura. Quando não conseguia alcançá-las, comia as que juntava do chão mesmo, após cuidadosa assepsia (leia-se esfregar na calça do uniforme).

No quintal da casa da Vó Carmira , com quem eu morava, havia algumas laranjeiras e um pé de araçá, que também recebiam as minhas constantes visitas. O pé de araçá já era “meu”, e um dia pensei que poderia ter a “minha” cerejeira também. A princípio, a Vó Carmira não ficou entusiasmada com a ideia, talvez por pensar que outra árvore plantada no quintal, que não era muito grande, faria sombra à sua horta, que vicejava na parte descoberta do terreno. Mas eu tanto insisti que ela  por fim concordou.

Foi assim que, certo dia, cheguei em casa com alguns caroços de cereja, despojo do meu último ataque à generosa árvore citada no início, e entreguei-os à minha vó. Ela não quis plantá-los no quintal das laranjeiras e da horta, pelos motivos já apresentados. Por isso, enterrou os caroços junto à cerca de arame que marcava os limites do terreno com o vizinho do lado esquerdo na parte da frente da casa. Já crescia a dois metros dali, mais perto do muro frontal, um diminuto limoeiro-galego. Minha cerejeira não estaria sozinha, afinal.

Em pouco tempo, um pequeno broto emergiu da terra e não demorou a ultrapassar o limoeiro em altura, que não devia ter mais de um metro e vinte.  Não precisei esperar muitos anos para colher os seus frutos e dispensar solenemente os préstimos da velha árvore, que agora me acenava em vão no caminho do colégio.

E a minha cerejeira não me servia apenas com os seus pequenos a abundantes frutos. Um galho que se entortara da forma certa acomodava de maneira confortável o adolescente magrelo que eu era e logo se transformou em minha poltrona de leitura predileta. Repeti inúmeras vezes a rotina de me instalar no robusto ramo esbranquiçado com um livro na mão e passar horas ali me deliciando com a leitura de gibis, bolsilivros e romances, paparicado pela brisa fresca que parecia transformar as folhas em pequenos e obedientes abanadores.

O limoeiro anão também contribuía com aqueles momentos felizes, porque eu às vezes colhia um ou dois limões-galegos antes de escalar a cerejeira. Eram frutas muito parecidas com tangerinas, tanto que a casca podia ser facilmente retirada com a mão. Assim, uma vez instalado em minha poltrona natural, eu descascava os limões e chupava-os, gomo por gomo. A casca não era ácida como a da tangerina, e eu a comia também. Depois do afago às minhas papilas gustativas, eu estava pronto para embarcar no maravilhoso mundo das aventuras.

Não sei se já cortaram a minha cerejeira. Da próxima vez que for a Jaguaruna, pretendo tirar essa dúvida.

Dois sonhos proféticos… ou não

Sou do tipo que se deita toda noite curioso para saber o que vou sonhar, e esse meu interesse por sonhos levou-me a observar certas características desse estranho estado da mente. Uma delas é que os sonhos são extremamente voláteis: as lembranças se dissolvem ao longo do dia, ou nos primeiros momentos de consciência, ou ainda ao mesmo tempo em que os olhos veem a luz.  Mas há sonhos que você nunca esquece e passam, de alguma forma, a fazer parte de sua história pessoal. Mas, para não cansar o leitor com as minhas teorias, passo a narrar dois sonhos dessa categoria, como prometido no título da postagem. Nunca os esqueci, e eles ficaram gravados na minha memória em definitivo com reforço adicional da realidade.

No início de 1974, quando eu tinha 12 anos, sonhei que estava olhando para o norte, de uma janela da minha casa em Jaguaruna, quando vi desenhada no céu a figura de um imenso guerreiro com escudo e lança. Ele descia com a lança apontada para baixo e continuou descendo até desaparecer por trás de um morro. As linhas de cor bem clara se destacavam contra o fundo escuro do firmamento, e notei que elas não eram fixas, mas ondulavam como água.

No mês de março daquele ano, a cidade vizinha de Tubarão, que ficava para aqueles lados, teve a pior enchente de sua história, que também causou sérios estragos em doze outros municípios. Foram contabilizados 199 mortos e mil desaparecidos. A interpretação do sonho (te cuida, Daniel!) só me ocorreu tempos depois, numa das várias ocasiões em que ele me veio à mente.

No outro sonho, eu estava olhando para o céu e uma pequena nuvem começou a se mover e de repente parou à entrada da cidade, junto ao rio que é atravessado ali por uma pequena ponte. No meio da nuvem, apareceu uma grande lata cilíndrica de metal, e do centro dela, pelo lado de fora, uma luz se acendeu, transformou-se num pequeno meteorito e caiu sobre o posto de gasolina que  ficava logo à esquerda de quem entrava na cidade. Houve um grande explosão, e o posto foi destruído.

Passaram-se meses e nada aconteceu. Alguns anos depois, quando já morava em Joinville, fui passar férias em Jaguaruna. Eu estava sentado numa poltrona do lado esquerdo e quando o ônibus atravessou a ponte a primeira coisa que vi foi o posto de gasolina… destruído. Pouca coisa permanecia de pé. Dessa vez, lembrei-me do sonho na hora. Depois alguém me informou que o estrago fora causado também por uma enchente.

Confesso que sou bastante cético com previsões em sonhos, especialmente os meus, e contei esses dois apenas por serem interessantes. E que dizer de seu cumprimento? Eu responderia que foi mera coincidência. Ou não.

Nota dez é bom

Estava lembrando hoje dos meus tempos de ginásio, cursado inteiramente no Colégio Marechal Luz, em Jaguaruna. Na época, vários professores vinham de Tubarão, cidade vizinha que generosamente supria a carência de mestres da minha terra natal.

Um desses professores importados chamava-se José, um homem moreno, com aparência de índio. Ele ensinava matemática. Eu já disse que era bom aluno, e também tirava notas boas na matéria do professor José. Aliás, num ano em particular, na sétima ou oitava série, tirei dez em várias provas passadas por ele.

Já perto do final do ano letivo, numa de suas aulas ele começou a chamar os alunos um por um à sua mesa para entregar a primeira prova do último bimestre, que fizéramos na aula anterior. Quando ele me estendeu a folha dupla de caderno preenchida com a minha letra e com as correções dele, vi que havia tirado outro dez. E ele me disse:

— Olha, eu nunca dou “ótimo” pra ninguém no boletim. Mas se você tirar dez na próxima prova, eu vou te dar um “ótimo”.

O colégio havia adotado recentemente um sistema de notas para o boletim que trocava os números pelos conceitos “ótimo”, “bom”, “satisfatório”, ‘regular” e “NA” (a nota vermelha, sigla de “necessita de atenção”). E de fato: mesmo nos bimestres em que eu tirava dez nas duas provas de matemática recebia apenas “bom” no boletim. Nunca soube por que ele não dava “ótimo” para ninguém, apenas deduzi que fosse alguma teoria particular.

Chegou então o dia da última prova, e cravei outro dez. Não lembro se ele fez algum comentário ao entregá-la, mas fiquei aguardando o glorioso momento de ser o único aluno do professor José a tirar “ótimo” na matéria dele.

Quando recebi o boletim, constatei que ele não cumprira a promessa: lá estava o inflexível “bom” figurando na janelinha da matemática pela quarta vez. Sua convicção deve ter falado mais forte na hora de entregar a nota na secretaria.

Mas não fiquei ressentido com ele. Era boa pessoa e bom professor.

 

Sangue bom

***

Jaguaruna era cidadezinha de um médico só, e durante muito tempo o único desses profissionais que atendia no hospital era o doutor Francisco — nunca soube o sobrenome dele. Outra motivo de eu me lembrar dele era a sua amizade com o meu pai, em razão da afinidade que ambos tinham pelo copo.

Certa ocasião, por uma emergência qualquer no hospital, o doutor Francisco convocou o meu pai para doar sangue.

— Tudo bem! — concordou o meu pai. — Mas já aviso que a metade é álcool.

O doutor Francisco nem pestanejou:

— Assim que é bom. Já vem esterilizado.