Breves notas sobre as palavras de Jesus: extratos da aula 29

Os pobres (humildes) de espírito
Mateus 5.3, ARA

O Sermão do Monte (Mt 5—7) é a base da doutrina de Jesus. As bem-aventuranças podem ser consideradas a base dessa base. E, como em Mateus é fácil deduzir que elas seguem uma sequência lógica, a primeira virtude da lista — a pobreza de espírito — constitui a base da base da base. Não há como entender plenamente o que Cristo espera de seus seguidores sem conhecer o significado de ser pobre de espírito.

Bem-aventurados os humildes [pobres] de espírito, porque deles é o reino dos céus.

  • O pobre de espírito não é o pobre, a chamada vítima da sociedade. Não existe uma bem-aventurança automática creditada a alguém só porque ele é desprovido de recursos materiais ou desfavorecido com relação a outros membros da sociedade. As virtudes que Cristo espera de seus seguidores não estão vinculadas a posses materiais ou status A razão é simples: o pobre pode ser orgulhoso, ganancioso, cruel, injusto e depravado, como qualquer pessoa. Nada garante que um pobre seja manso, misericordioso, pacificador, e assim por diante. Sem dúvida, Deus se preocupa com os pobres (Lv 19.9-10; Tg 1.27), mas não faz acepção quando a moral e a espiritualidade estão envolvidas (Lv 19.15; ver Dt 1.17; At 10.34-35).
  • A passagem paralela de Lucas 6.20 menciona apenas os “pobres” nessa bem-aventurança. A razão é que nos tempos de Cristo (e em outras épocas também) os ricos tendiam a transigir com o paganismo, e era entre os pobres que se encontravam as pessoas mais piedosas, ou seja, estatisticamente os pobres eram mais fieis que os ricos. Convém lembrar ainda que na cultura judaica os ricos eram tidos por bem-aventurados, não os pobres.
  • No princípio, ser “pobre” significava passar necessidades materiais. Mas como os necessitados geralmente não tinham outro refúgio a não ser Deus, a “pobreza” recebeu nuances espirituais e passou a ser uma humilde dependência de Deus.
  • O pobre de espírito também não é o crente “fraco” (Rm 14) nem o de pouca instrução, que nos arraiais eclesiásticos são chamados “humildes”. Nenhuma dessas condições diz respeito ao que Jesus tem em vista aqui. O crente “fraco” é simplesmente alguém que precisa robustecer sua espiritualidade, e o “humilde” não passa do crente que precisa se instruir. Não é raro nas igrejas pessoas terem certo orgulho de sua ignorância, como se isso lhes desse algum crédito espiritual. Nem o orgulho nem a ignorância são esperados de um seguidor de Cristo, como ele mesmo diz: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11.28).
  • O pobre de espírito é aquele que se aproxima de Deus e, quanto mais próximo dele, mais consciência tem de sua condição miserável. Nessa proximidade, ele também percebe o estado decaído do mundo e se convence de que a única esperança de salvação reside em Deus. De nada importa a quantidade de recursos materiais que possua ou o estrato social a que pertença, tudo se dissolve diante das riquezas da graça. Então ele reconhece a sua pobreza e passa a depender exclusivamente de Deus. Um hino da Harpa cristã diz: “Às alturas santas ninguém voa sem as asas da humilhação”. Quem não alcança essa percepção é um simples iludido com a autossuficiência e cai na condenação de Laodiceia (Ap 3.17).
  • O orgulho espiritual ou religioso impede a sintonia plena com Deus, pois o pobre de espírito é aquele se esvazia do humano para ser cheio do divino. Mas devemos cuidar para não nos orgulharmos de nossa pobreza de espírito, porque o orgulho espiritual é estática em nossa comunicação com Deus. Os fariseus tinham bons propósitos no início, porque trabalhavam para trazer o povo de volta à obediência da Lei. Mas depois começaram a entupir o canal com as suas regras e tradições e passaram a admirar a própria piedade. Com isso, perderam a sintonia com Deus, como o rio que se torna mais poluído à medida que se afasta na nascente e se aproxima das cidades. Assim, quando o Messias chegou, estavam tão desconectados de Deus que nem foram capazes de reconhecê-lo.
  • O Reino dos céus pertence ao pobre de espírito aqui e na eternidade porque “ninguém há que tenha deixado casa, ou mulher, ou irmãos, ou pais, ou filhos, por causa do reino de Deus, que não receba, no presente, muitas vezes mais e, no mundo por vir, a vida eterna” (Lc 18.29-30). Essa bem-aventurança encerra um dos maravilhosos paradoxos da fé cristã: o pobre de espírito fica sem nada para ter tudo (Mt 16.25).

Breves notas sobre as palavras de Jesus: extratos da aula 28

Introdução às bem-aventuranças
Mateus 5.1-12 (Lucas 6.20-23)

1. O significado das bem-aventuranças

  • “Bem-aventurança” é o que chamamos “felicidade”. O bem-aventurado, portanto, é uma pessoa feliz. A busca da felicidade é natural no ser humano. Onde quer que esteja, mesmo nas condições mais desfavoráveis, ele tentará uma vida melhor nesse ambiente. Com o seguidor de Cristo não é diferente, mas ele deve se amoldar ao conceito de felicidade ensinado pelo seu Mestre.
  • O mundo tem uma ideia distorcida de felicidade, baseada em posses externas. O “sermão da telinha”, por exemplo, aquela doutrinação inserida nas novelas, diz que você deve lutar pela sua felicidade indo atrás de quem você ama, mesmo que essa pessoa seja a mulher ou o marido de alguém. Alguns acham que serão felizes quando possuírem uma mansão com uma Ferrari na garagem. Mas ninguém será feliz apenas por possuir riquezas (1Tm 6.17) ou a mulher do próximo. O resultado costuma ser o oposto de felicidade (Ec 5.12). Até porque, no caminho dessas conquistas, geralmente são cometidos atos desonestos, cruéis e egoístas, que teriam a desaprovação de Jesus.
  • As bem-aventuranças são encontradas em toda a Bíblia. No Antigo Testamento, a expressão apontava para as qualidades que traziam bênçãos aos que eram fiéis a Jeová (Sl 1.1; 119.1-2; Pv 28.14). Essas bênçãos consistiam muitas vezes em bens materiais. Foi assim que Deus abençoou Abraão (Gn 24.1). O “moço rico” que se encontrou com Jesus (Mt 19.16-23) era tido como bem-aventurado pela sociedade da época. No Novo Testamento, as bem-aventuranças apontam para certas virtudes e atitudes que mantêm o seguidor de Cristo num estado interior de felicidade, a despeito das circunstâncias.
  • Conquistas externas nunca farão ninguém feliz. Do contrário, Jesus não mandaria o moço rico se desfazer delas. Portanto, a verdadeira busca da felicidade consiste em cultivar as virtudes que Jesus relaciona nessa passagem. Ele nunca ordenará que você as descarte para ser feliz.

2. O cultivo das virtudes bem-aventuradas

  • As virtudes mencionadas por Jesus devem ser cultivadas e praticadas por todos os crentes. Convém observar que elas estão relacionadas às sete primeiras bem-aventuranças. As duas últimas (perseguidos por causa da justiça e perseguidos por causa de Cristo) obviamente não são qualidades cultivadas, mas situações que também resultam em bem-aventuranças.
  • Essas virtudes se desenvolvem ao mesmo tempo, pois são inseparáveis umas das outras. Todas devem se manifestar em conjunto na vida do seguidor de Jesus. Para usar uma ilustração prosaica, a espiritualidade cresce como uma laranja, que desenvolve todos os gomos ao mesmo tempo (leia Gl 5.22). Você não vê um gomo brotando sozinho na laranjeira.
  • O Mestre não espera que alguns sejam “limpos de coração”, e outros, “misericordiosos”. Por exemplo: é impossível conviver com a tristeza e a injustiça do mundo sem a qualidade da mansidão, pois quem não é manso tentará acabar com a injustiça por meios errados. É assim que nascem os fanáticos e os terroristas, que também alegam corrigir injustiças.
  • A entrega a Cristo deve ser total (Mt 16.23; 1Ts 5.23). É claro que tais virtudes não irão se manifestar de maneira plena ou perfeitamente equilibrada no seguidor de Jesus. Cada pessoa tem a sua jornada no caminho da santificação. Contudo, elas estão interligadas e interdependentes. O Espírito Santo, que habita em nós, também nos ajuda e proporciona esse crescimento abrangente e equilibrado. Qualquer desequilíbrio será resultado de nossas limitações e imperfeições.

3. Diferença entre as virtudes bem-aventuradas e as tendências naturais do ser humano

  • Há pessoas que, por temperamento, parecem mansas, misericordiosas, pacificadoras. Mas são características naturais. Dessa maneira, é possível alguém se portar com mansidão, mas não ser misericordioso. O enfermeiro, por experiência profissional, pode ser misericordioso (mais propenso a cuidar sem julgar), mas não necessariamente um pacificador ao se envolver nos conflitos internos de seu ambiente de trabalho. Qualidades naturais, inatas ou aprendidas, não integram o conjunto de virtudes que formam a nossa personalidade espiritual. São manifestações isoladas, não parte daquela entrega total que Jesus exige.

4. Diferença entre as virtudes bem-aventuradas e os dons espirituais

  • Os pentecostais e neopentecostais têm uma deficiência crônica no entendimento da espiritualidade. Em alguns desses ambientes eclesiásticos, a pessoa que tem um dom espiritual, como o de profecia, costuma ser considerada ou mesmo se julgar mais espiritual que as outras. É como se a espiritualidade fosse um jogo de computador, e o dom, o equivalente à mudança de fase. Mas a verdade é que esses dons não tornam ninguém mais espiritual. A igreja de Corinto é o caso clássico dessa realidade (1Co 3.1-3; compare com 1.7).
  • Os dons espirituais vêm “de fora” e são concedidos individualmente (1Co 12.27-30). Há variedade de dons distribuídos pelo Espírito Santo a diferentes pessoas. Uma pessoa pode ter mais de um dom, mas esse não é o objetivo. Pode-se até dizer que o oposto é o mais desejado: pessoas com diferentes dons contribuindo para o bem do Corpo. A espiritualidade (como efeito das virtudes bem-aventuradas), por sua vez, vem de dentro e abrange todo o ser.

5. Os efeitos das virtudes bem-aventuradas

  • Outra característica das virtudes enumeradas por Jesus é que cada uma delas tem o seu efeito, que pode também ser considerado uma promessa: os mansos herdarão a terra; os misericordiosos alcançarão misericórdia. E assim por diante.
  • Cada promessa tem duplo cumprimento: no tempo presente e no futuro que chamamos “estado eterno”. Por exemplo: os puros de coração verão a Deus. Isso significa que eles têm uma percepção maior da Divindade nesta vida e o verão em sua plenitude na glória (Hb 12.14; 1Jo 3.2). A felicidade alcançada em parte, digamos assim, pelos seguidores de Cristo nesta vida será vivenciada em sua perfeição na eternidade.

A bem-aventurança do anonimato

no-faceFazer o bem não é fácil, e mais difícil ainda é ajudar os outros sem esperar reconhecimento nesta terra. Ouvi de um pastor certa vez que o ego tem de ser massageado. Não discordo, se a massagem for aquele incentivo saudável que todo bom líder consegue aplicar na dosagem certa ou a gratidão demonstrada a quem merece. Mas, como cristãos, em nosso serviço ao próximo não devemos nem mesmo criar essa expectativa.

O motivo é que corremos o risco de cair na obsessão dos fariseus dos tempos de Cristo, que não davam uma moeda a um mendigo sem antes contratar um tocador de trombeta. A crítica de Jesus àqueles caçadores de elogios era uma forma de dizer: “Bem-aventurados os anônimos”. E, como toda bem-aventurança está acompanhada de uma promessa, a dos anônimos seria: “… porque eles obterão o reconhecimento de Deus”.

Um dos meus anônimos preferidos na Bíblia é o homem que emprestou o cenáculo para Jesus e seus discípulos. Mateus, Marcos e Lucas registram esse fato, e a tripla referência é sinal de sua importância. Não é para menos. No cenáculo, ocorreu a Última Ceia com os seus comoventes e dramáticos desdobramentos. Nesse lugar, provavelmente um espaço coberto sobre um terraço, os discípulos permaneceram após a ascensão de Jesus. Por fim, foi nesse local que nasceu a igreja. Mesmo assim, nenhum dos três evangelistas nos fez a gentileza de declinar o nome desse homem generoso e hospitaleiro. Conhecemos o nome do bandido Barrabás, mas não o da pessoa que acolheu em sua casa o Salvador do mundo e depois o Consolador da era da graça.

Não se pode negar: o reconhecimento humano é sempre imperfeito. É incompleto, injusto ou, na melhor das hipóteses, sobrevive ao homenageado, mas acaba se perdendo em algum corredor da história. O reconhecimento de Deus não só é perfeito como transcende o tempo. A aprovação divina transforma a gratidão efêmera num peso eterno de glória.

Só Deus, em sua onisciência e onipresença, pode nos agraciar com esse tipo de reconhecimento. Ele conhece os nossos caminhos, mesmo os mais solitários, e o fogo de seus olhos sonda os recantos mais ocultos do nosso coração sem deixar nenhuma intenção encoberta. Se depois desse escrutínio formos aprovados, teremos a nossa obra reconhecida em todo o Universo.

O dono do cenáculo não recebeu nem uma plaquinha para mostrar aos amigos, mas na eternidade ele será conhecido e reconhecido, em dimensões que nunca imaginou. A boa notícia serve para nós também. Todo bem que praticamos e não é reconhecido neste mundo está registrado em letras indeléveis no céu. Porque, afinal, para Deus não existem anônimos. Ele conhece os seus bem-aventurados.

Os nove conceitos das bem-aventuranças

Adaptado do artigo: Lições Bíblicas: “A prosperidade dos bem-aventurados”. Ainda em recesso criativo, reproduzo os conceitos expressos nas bem-aventuranças. Talvez sirva de esboço para a pregação de alguém.

Os pobres de espírito. Essa bem-aventurança indica a atitude de nos esvaziarmos de toda arrogância, de todo conhecimento ou sofisticação que pensamos possuir, para então, conscientes da nossa pequenez, nos aproximarmos de Deus e assim sermos dignos de ingressar no Reino.

Os que choram. A bem-aventurança do choro constitui uma antinomia (dois fatos contraditórios, porém igualmente verdadeiros): a felicidade convive com a tristeza. O crente chora pela própria condição espiritual e pela situação do mundo. Ele lamenta os próprios erros e se comove com os perdidos. Ao mesmo tempo, a sua espiritualidade resulta em alegria, o segundo elemento do fruto do Espírito (Gl 5.22). O próprio mundo foi criado num clima de imensa alegria (Jó 38.4-7), e hoje ansiamos por restaurá-la (Rm 8.19-23).

Os mansos. Segundo o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, manso é aquele “de gênio afável, sossegado, bom; dócil, pacato”. Os adágios populares reconhecem o poder da mansidão (leia aqui). Quem não é manso tem um arsenal: granada, porrete, palavras ofensivas; o manso tem a despensa cheia de milho. E, embora para muitos pareça sinônimo de covardia, a mansidão na verdade exige coragem. Cristo foi exemplo dessa mansidão corajosa (Is 53.7). O manso é um valente de Deus, por isso ele conquistará a terra (Sl 37.10,11).

Os que têm fome e sede de justiça. A justiça é o “caráter, qualidade do que está em conformidade com o que é direito, com o que é justo; maneira pessoal de perceber, avaliar aquilo que é direito, que é justo”. Deus também é justo (Sl 145.17). O cristão deve ser justo e pensar no que é justo (Fp 4.8). A justiça é a base do justo (Pv 12.3). O crente sabe que este mundo é injusto, mas sabe também que a justiça será o estado final das coisas (Jr 23.6) — nesse dia, ele será “farto”.

Os misericordiosos. Diz o ditado que ninguém é enforcado quando o carrasco esconde a corda. Isso porque “a misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tg 2.13). Essa poderosa bem-aventurança guarda certa relação com a Regra Áurea (Mt 7.12) e é exercida em nosso relacionamento com Deus (Lm 3.22; Os 6.6), com o próximo (Mt 18.21-35) e com nós mesmos (Ec 7.16).

Os limpos (ou puros) de coração. Puro de coração não é o crente ingênuo, e sim o cristão maduro que percebe as armadilhas satânicas. Devemos praticar o bem não por desconhecer o mal, mas por optar pela melhor atitude. A maior vitória é você ter chance de fazer o mal e conscientemente virar-lhe as costas, sabendo que é a opção mais sábia e do agrado de Deus.

Os pacificadores. A paz é um objetivo do cidadão do Reino. O evangelho trabalha para a paz. Jesus veio “guiar nossos pés no caminho da paz” (Lc 1.79). Convivemos o tempo todo com a possibilidade de conflito: na família, no trabalho, na igreja. A própria pregação do evangelho, que é de paz, pressupõe o conflito, porque denuncia o pecado do mundo (Mt 10.34). Nos últimos tempos, vemos grupos cada vez mais agressivos em sua propaganda anticristã. Os cristãos precisam responder, mas sem o ânimo pacificador corremos o risco de ter uma simples guerra, para prejuízo do Reino de Deus.

Os perseguidos por causa da justiça. O cristão que desenvolve a virtude conforme os padrões do Reino de Deus é um corpo estranho no sistema do mundo. São água e óleo no mesmo recipiente. A convicção cristã não está necessariamente envolvida nesse caso, apenas a atitude correta. E, quando alguém se porta de maneira íntegra num ambiente corrompido, acaba provocando uma reação contrária. Crentes são demitidos, por exemplo, por não concordarem com alguma política desonesta da empresa. É o preço de ser justo num mundo injusto.

Os perseguidos por causa de Jesus. Em Atos 4.1-22, temos um exemplo de perseguição motivada apenas por causa do nome de Jesus. Nenhuma questão de “justiça” estava envolvida, como no caso anterior, apenas a pregação. Se a nossa virtude não incomodar ninguém, o nome de Cristo com certeza irá fazer algum lobo levantar as orelhas. Quem age com justiça e traz o nome de Cristo é um eterno candidato à perseguição, de alguma forma.