Estudo sobre as palavras de Jesus: extratos da aula 28

Introdução às bem-aventuranças
Mateus 5.1-12 (Lucas 6.20-23)

1. O que são as bem-aventuranças
“Bem-aventurança” é o que chamamos “felicidade”. O bem-aventurado, portanto, é uma pessoa feliz. A busca da felicidade é natural no ser humano. Onde quer que esteja, mesmo nas condições mais desfavoráveis, ele tentará uma vida melhor nesse ambiente. Com o seguidor de Cristo não é diferente, mas ele deve se amoldar ao conceito de felicidade ensinado pelo seu Mestre.
O mundo tem uma ideia distorcida de felicidade, baseada em posses externas. O “sermão da telinha”, aquela doutrinação inserida nas novelas, diz que você deve lutar pela sua felicidade indo atrás de quem você ama, mesmo que essa pessoa seja a mulher ou o marido de alguém. Alguns acham que serão felizes quando possuírem uma mansão com uma Ferrari na garagem. Mas ninguém será feliz apenas por possuir riquezas (1Tm 6.17) ou a mulher do próximo. O resultado costuma ser o oposto de felicidade (Ec 5.12). Até porque, no caminho dessas conquistas, geralmente são cometidos atos desonestos, cruéis e egoístas, que teriam a desaprovação de Jesus.
As bem-aventuranças são encontradas em toda a Bíblia. No Antigo Testamento, a expressão apontava para as qualidades que traziam bênçãos aos que eram fiéis a Jeová (Sl 1.1; 119.1-2; Pv 28.14). Essas bênçãos consistiam muitas vezes em bens materiais. Foi assim que Deus abençoou Abraão (Gn 24.1). O “moço rico” que se encontrou com Jesus (Mt 19.16-23) era tido como bem-aventurado pela sociedade da época. No Novo Testamento, as bem-aventuranças apontam para certas virtudes que mantêm o seguidor de Cristo num estado interior de felicidade, a despeito das circunstâncias.
Conquistas externas nunca farão ninguém feliz. Do contrário, Jesus não mandaria o moço rico se desfazer delas. Portanto, a verdadeira busca da felicidade consiste em cultivar as virtudes que Jesus relaciona nessa passagem. Ele nunca ordenará que você descarte essas virtudes para ser feliz.
As bem-aventuranças estão inseridas na abertura do Sermão do Monte (Mt 5—7) porque todas as atitudes que Jesus espera de seus seguidores, mencionadas no restante de sua prédica, estão relacionadas com elas

2. As virtudes que resultam nas bem-aventuranças
As qualidades mencionadas por Jesus devem ser cultivadas por todos os crentes. Convém observar que elas estão relacionadas às sete primeiras bem-aventuranças. AS duas últimas (perseguidos por causa da justiça e perseguidos por causa de Cristo) obviamente não são qualidades cultivadas, mas situações que também resultam em bem-aventuranças.
Essas virtudes devem ser cultivadas por todos os crentes ao mesmo. Todas devem se manifestar em conjunto na vida do seguidor de Jesus. Ele não espera que alguns sejam “limpos de coração”, e outros, “misericordiosos”. Por exemplo: é impossível conviver com a tristeza e a injustiça do mundo sem a qualidade da mansidão, pois quem não é manso tentará acabar com injustiça por meios errados. É assim que nascem os fanáticos e os terroristas, que também alegam corrigir injustiças.
A entrega a Cristo deve ser total (Mt 16.23; 1Ts 5.23). É claro que tais virtudes não irão se manifestar de maneira plena ou perfeitamente equilibrada no seguidor de Jesus. Cada pessoa tem a sua jornada no caminho da santificação. Contudo, elas estão interligadas e interdependentes: não podem ser desenvolvidas em separado. O Espírito Santo, que habita em nós, também nos ajuda e proporciona esse crescimento abrangente e equilibrado. Qualquer desequilíbrio será resultado de nossas limitações e imperfeições.

3. Diferença entre as virtudes que resultam nas bem-aventuranças e as tendências naturais do ser humano
Há pessoas que, por temperamento, parecem mansas, misericordiosas, pacificadoras. Mas são características naturais. Dessa maneira, é possível alguém se portar com mansidão, mas não ser misericordioso. O enfermeiro, por experiência profissional, pode ser misericordioso (mais propenso a cuidar sem julgar), mas não necessariamente um pacificador.
Essas qualidades naturais, inatas ou aprendidas, não fazem parte do conjunto de virtudes que formam uma personalidade espiritual. São manifestações isoladas, não fazem parte daquela entrega total que Jesus exige.
Para usar uma ilustração prosaica, a espiritualidade cresce como uma laranja, que desenvolve todos os gomos ao mesmo tempo (leia Gl 5.22). Você não vê um gomo brotando sozinho na laranjeira.

4. Diferença entre as virtudes que resultam nas bem-aventuranças e os dons espirituais
Os pentecostais e neopentecostais têm uma deficiência crônica no entendimento da espiritualidade. Em alguns desses ambientes eclesiásticos, a pessoa que tem um dom, como o de profecia, costuma ser considerada e mesmo se julgar mais espiritual que as outras. É como se a espiritualidade fosse um jogo de computador, e o dom, o equivalente à mudança de fase. Mas a verdade é que esses dons não tornam ninguém mais espiritual. A igreja de Corinto é o caso clássico dessa realidade (1Co 3.1-3; compare com 1.7).
Os dons espirituais vêm “de fora” e são concedidos individualmente (1Co 12.27-30). Há variedade de dons distribuídos pelo Espírito Santo a diferentes pessoas. Uma pessoa pode ter mais de um dom, mas esse não é o objetivo. Pode-se até dizer que o oposto é o mais desejado: pessoas com diferentes dons contribuindo para o bem do Corpo. A espiritualidade, por sua vez, vem de dentro e abrange todo o ser.

5. Os efeitos das virtudes
Outra característica das virtudes enumeradas por Jesus é que cada uma delas tem o seu efeito, que pode também ser considerado uma promessa: os mansos herdarão a terra; os misericordiosos alcançarão misericórdia. E assim por diante.
E cada promessa tem o seu cumprimento no tempo presente, mas também terá um cumprimento futuro. Por exemplo: os puros de coração verão a Deus. Isso significa que eles têm uma percepção maior da Divindade nesta vida e que o verão em sua plenitude na glória (Hb 12.14; 1Jo 3.2).
A verdadeira felicidade é alcançada pelos seguidores de Cristo nesta vida e mantida por toda a eternidade.

A bem-aventurança do anonimato

no-faceFazer o bem não é fácil, e mais difícil ainda é ajudar os outros sem esperar reconhecimento nesta terra. Ouvi de um pastor certa vez que o ego tem de ser massageado. Não discordo, se a massagem for aquele incentivo saudável que todo bom líder consegue aplicar na dosagem certa ou a gratidão demonstrada a quem merece. Mas, como cristãos, em nosso serviço ao próximo não devemos nem mesmo criar essa expectativa.

O motivo é que corremos o risco de cair na obsessão dos fariseus dos tempos de Cristo, que não davam uma moeda a um mendigo sem antes contratar um tocador de trombeta. A crítica de Jesus àqueles caçadores de elogios era uma forma de dizer: “Bem-aventurados os anônimos”. E, como toda bem-aventurança está acompanhada de uma promessa, a dos anônimos seria: “… porque eles obterão o reconhecimento de Deus”.

Um dos meus anônimos preferidos na Bíblia é o homem que emprestou o cenáculo para Jesus e seus discípulos. Mateus, Marcos e Lucas registram esse fato, e a tripla referência é sinal de sua importância. Não é para menos. No cenáculo, ocorreu a Última Ceia com os seus comoventes e dramáticos desdobramentos. Nesse lugar, provavelmente um espaço coberto sobre um terraço, os discípulos permaneceram após a ascensão de Jesus. Por fim, foi nesse local que nasceu a igreja. Mesmo assim, nenhum dos três evangelistas nos fez a gentileza de declinar o nome desse homem generoso e hospitaleiro. Conhecemos o nome do bandido Barrabás, mas não o da pessoa que acolheu em sua casa o Salvador do mundo e depois o Consolador da era da graça.

Não se pode negar: o reconhecimento humano é sempre imperfeito. É incompleto, injusto ou, na melhor das hipóteses, sobrevive ao homenageado, mas acaba se perdendo em algum corredor da história. O reconhecimento de Deus não só é perfeito como transcende o tempo. A aprovação divina transforma a gratidão efêmera num peso eterno de glória.

Só Deus, em sua onisciência e onipresença, pode nos agraciar com esse tipo de reconhecimento. Ele conhece os nossos caminhos, mesmo os mais solitários, e o fogo de seus olhos sonda os recantos mais ocultos do nosso coração sem deixar nenhuma intenção encoberta. Se depois desse escrutínio formos aprovados, teremos a nossa obra reconhecida em todo o Universo.

O dono do cenáculo não recebeu nem uma plaquinha para mostrar aos amigos, mas na eternidade ele será conhecido e reconhecido, em dimensões que nunca imaginou. A boa notícia serve para nós também. Todo bem que praticamos e não é reconhecido neste mundo está registrado em letras indeléveis no céu. Porque, afinal, para Deus não existem anônimos. Ele conhece os seus bem-aventurados.

Os nove conceitos das bem-aventuranças

Adaptado do artigo: Lições Bíblicas: “A prosperidade dos bem-aventurados”. Ainda em recesso criativo, reproduzo os conceitos expressos nas bem-aventuranças. Talvez sirva de esboço para a pregação de alguém.

Os pobres de espírito. Essa bem-aventurança indica a atitude de nos esvaziarmos de toda arrogância, de todo conhecimento ou sofisticação que pensamos possuir, para então, conscientes da nossa pequenez, nos aproximarmos de Deus e assim sermos dignos de ingressar no Reino.

Os que choram. A bem-aventurança do choro constitui uma antinomia (dois fatos contraditórios, porém igualmente verdadeiros): a felicidade convive com a tristeza. O crente chora pela própria condição espiritual e pela situação do mundo. Ele lamenta os próprios erros e se comove com os perdidos. Ao mesmo tempo, a sua espiritualidade resulta em alegria, o segundo elemento do fruto do Espírito (Gl 5.22). O próprio mundo foi criado num clima de imensa alegria (Jó 38.4-7), e hoje ansiamos por restaurá-la (Rm 8.19-23).

Os mansos. Segundo o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, manso é aquele “de gênio afável, sossegado, bom; dócil, pacato”. Os adágios populares reconhecem o poder da mansidão (leia aqui). Quem não é manso tem um arsenal: granada, porrete, palavras ofensivas; o manso tem a despensa cheia de milho. E, embora para muitos pareça sinônimo de covardia, a mansidão na verdade exige coragem. Cristo foi exemplo dessa mansidão corajosa (Is 53.7). O manso é um valente de Deus, por isso ele conquistará a terra (Sl 37.10,11).

Os que têm fome e sede de justiça. A justiça é o “caráter, qualidade do que está em conformidade com o que é direito, com o que é justo; maneira pessoal de perceber, avaliar aquilo que é direito, que é justo”. Deus também é justo (Sl 145.17). O cristão deve ser justo e pensar no que é justo (Fp 4.8). A justiça é a base do justo (Pv 12.3). O crente sabe que este mundo é injusto, mas sabe também que a justiça será o estado final das coisas (Jr 23.6) — nesse dia, ele será “farto”.

Os misericordiosos. Diz o ditado que ninguém é enforcado quando o carrasco esconde a corda. Isso porque “a misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tg 2.13). Essa poderosa bem-aventurança guarda certa relação com a Regra Áurea (Mt 7.12) e é exercida em nosso relacionamento com Deus (Lm 3.22; Os 6.6), com o próximo (Mt 18.21-35) e com nós mesmos (Ec 7.16).

Os limpos (ou puros) de coração. Puro de coração não é o crente ingênuo, e sim o cristão maduro que percebe as armadilhas satânicas. Devemos praticar o bem não por desconhecer o mal, mas por optar pela melhor atitude. A maior vitória é você ter chance de fazer o mal e conscientemente virar-lhe as costas, sabendo que é a opção mais sábia e do agrado de Deus.

Os pacificadores. A paz é um objetivo do cidadão do Reino. O evangelho trabalha para a paz. Jesus veio “guiar nossos pés no caminho da paz” (Lc 1.79). Convivemos o tempo todo com a possibilidade de conflito: na família, no trabalho, na igreja. A própria pregação do evangelho, que é de paz, pressupõe o conflito, porque denuncia o pecado do mundo (Mt 10.34). Nos últimos tempos, vemos grupos cada vez mais agressivos em sua propaganda anticristã. Os cristãos precisam responder, mas sem o ânimo pacificador corremos o risco de ter uma simples guerra, para prejuízo do Reino de Deus.

Os perseguidos por causa da justiça. O cristão que desenvolve a virtude conforme os padrões do Reino de Deus é um corpo estranho no sistema do mundo. São água e óleo no mesmo recipiente. A convicção cristã não está necessariamente envolvida nesse caso, apenas a atitude correta. E, quando alguém se porta de maneira íntegra num ambiente corrompido, acaba provocando uma reação contrária. Crentes são demitidos, por exemplo, por não concordarem com alguma política desonesta da empresa. É o preço de ser justo num mundo injusto.

Os perseguidos por causa de Jesus. Em Atos 4.1-22, temos um exemplo de perseguição motivada apenas por causa do nome de Jesus. Nenhuma questão de “justiça” estava envolvida, como no caso anterior, apenas a pregação. Se a nossa virtude não incomodar ninguém, o nome de Cristo com certeza irá fazer algum lobo levantar as orelhas. Quem age com justiça e traz o nome de Cristo é um eterno candidato à perseguição, de alguma forma.

Presentinho do dia: livro As bem-aventuranças (Charles H. Spurgeon)

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Charles H. Spurgeon - As bem-aventurançasLivro disponibilizado pelo Projeto Spurgeon, dedicado à tradução de sermões, devocionais e livros do pregador batista reformado Charles Haddon Spurgeon (1834-1892). Esta obra consiste de  uma série de sermões sobre as bem-aventuranças compilados de pregações e escritos do Príncipe dos Pregadores.

“As bem-aventuranças derivam muito de seu valor da sabedoria e glória de Quem as pronunciou, e, portanto, desde o início vocês são convidados a atentarem para este fato. Lange afirma que ‘o homem é a boca da criação, e Jesus é a boca da humanidade’; mas nós preferimos, neste lugar, pensar que Jesus é a boca da Deidade, e receber cada uma de Suas palavras como revestidas de um poder infinito” (da Introdução). Tamanho 2,6 MB (PDF).

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