Não é só o “mundo” que inverte valores (reedição)

Costumamos acusar o sistema do “deus deste século”, que chamamos “mundo” de inverter os princípios bíblicos e emporcalhar as instituições saudáveis e benéficas ao ser humano, e nisso estamos absolutamente certos. Não se poderia esperar outra coisa, aliás. Se vivemos num mundo imerso no Maligno, seria muito estranho que os valores cristãos não encontrassem resistência. Mas os cristãos, que não são do “mundo”, às vezes se esquecem de que ainda vivem nele e por descuido, quero crer, acabam jogando contra o patrimônio.

Por exemplo, costumo passar diante de uma dessas denominações ou comunidades que se proliferam como gramíneas nos centros urbanos, e vejo ali a prova da inversão das prioridades do evangelho: o pequeno salão com portas de rolo que se abrem para a calçada; a placa de identificação cujo nome corresponde a um clichê evangélico; a foto da pastora Fulana de Tal.

Se pensarmos nos principais componentes da igreja, iremos nos lembrar de Cristo, seu fundador e cabeça. A Cabeça nos remeterá ao seu corpo espiritual, a igreja dita universal ou invisível. Por fim, cogitaremos a igreja local, a ekklesia que acontece quando um grupo de crentes que se reúne em determinado lugar.

O descrente alcançado pelo evangelho deveria ser apresentado antes de tudo a Cristo, mas a primeira pessoa que ele conhece ao passar diante de um desses estabelecimentos é o “pastor”, “missionário” ou “apóstolo” titular do CNPJ.

Ele deveria em seguida ser introduzido no organismo vivo para se integrar como membro, mergulhado na sublimidade do batismo espiritual que nos faz um com o Senhor. Em vez disso, depara com um nome esquisito numa placa (ou com um nome tradicional, não faz diferença).

O convertido deveria logo depois ser conscientizado de que pertence a um povo, não um lugar (daí a expressão bíblica “a igreja que se reúne na casa de…”). Mas antes mesmo que exista povo, o templo já está ali, muito parecido com uma lojinha de 1,99. Depois disso, o novo crente confundirá templo com igreja pelo resto da vida. Ou com uma lojinha, se não ficar atento.

O líder religioso antes de Cristo. A instituição legal antes da igreja. O prédio antes do povo. Em todas essas coisas, o humano antes do divino. Eis a inversão.

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A que igreja você pertence?

Churches

Quando conhecemos alguém que se diz evangélico, cristão ou crente, logo perguntamos: “De que igreja você é?”. O que queremos saber é a que denominação ele pertence. Nos dias de hoje, podemos ouvir respostas estranhas como “Bola de Neve”, que já nem é tão incomum, “Comunidade do Coração Reciclado” ou “Assembleia de Deus Pavio que Fumega”. É a diversidade gospel representada na pessoa jurídica, que em abrangência pode variar de organização multinacional a birosca, não raro identificada por uma marca de gosto duvidoso.

Já adianto que não pretendo aqui travar nenhuma batalha semântica com o leitor. A pergunta do título refere-se a um dos vários significados que a palavra “igreja” foi agregando com o passar dos séculos e, no atual contexto, é bastante natural e de forma alguma está errada. A linguagem é dinâmica, e não há como refrear esse processo. No entanto, sabemos que esse tipo de evolução costuma ocorrer com base em equívocos. Foi assim que “igreja”, “templo” e “denominação” se tornaram palavras sinônimas.

Contudo, no dicionário divino “igreja” é sempre povo. Esse povo são as pedras vivas de um edifício espiritual, que não ostenta nenhuma placa, mas se ergue para honrar um Nome que está acima de qualquer outro nome. Assim, Jesus nunca vê um templo como uma igreja, mas pode identificá-la entre os que o frequentam.

Mais ainda: nenhuma denominação é igreja. Desse modo, Assembleia de Deus não é igreja. Nenhuma dita igreja histórica é igreja no sentido bíblico. Não existe igreja reformada nem pentecostal. Não há comunidade, de nome bonito ou esquisito, que Cristo considere igreja conforme definida no dicionário de Deus. Denominações, tradições cristãs e comunidades são, na melhor das hipóteses, empreendimentos humanos bem-intencionados. Na pior, e cada vez mais frequente, meras empresas.

Na hora do arrebatamento da igreja, doutrina em que creio piamente, estará acontecendo um culto cristão em algum templo do mundo. Se você estiver por perto e não for cristão, perceberá que nem todos ali foram arrebatados. Amplie a sua pesquisa, e encontrará membros ativos de diversas denominações cristãs que descobriram ou já sabiam que estavam excluídos do projeto divino. A razão disso é que a igreja que Cristo veio edificar transcende a essas exterioridades, ao mesmo tempo em que pode jubjazer a certas estruturas, mas nunca se une hipostaticamente a elas.

No entanto, vivemos tempos confusos, e está cada vez mais difícil enxergar o edifício espiritual sufocado sob as pretensões humanas. Por isso, sugiro ao leitor uma volta às origens. Antes de satisfazer a curiosidade natural de saber a que grupo evangélico alguém pertence, pergunte a ele: “Você pertence à igreja?”. Talvez nem ele nem você entendam a abrangência dessa simples pergunta, mas estarão no caminho para entender o projeto original de Cristo.

Não é só o “mundo” que inverte valores

Costumamos acusar o sistema do “deus deste século”, que chamamos “mundo” de inverter os princípios bíblicos e emporcalhar as instituições saudáveis e benéficas ao ser humano, e nisso estamos absolutamente certos. Não se poderia esperar outra coisa, aliás. Se vivemos num mundo imerso no Maligno, seria muito estranho que os valores cristãos não encontrassem resistência. Mas os cristãos, que não são do “mundo”, às vezes se esquecem de que ainda vivem nele e por descuido, quero crer, acabam jogando contra o patrimônio.

Por exemplo, costumo passar diante de uma dessas denominações ou comunidades que se proliferam como gramíneas nos centros urbanos, e vejo ali a prova da inversão das prioridades do evangelho: o pequeno salão com portas de rolo que se abrem para a calçada; a placa de identificação cujo nome corresponde a um clichê evangélico; a foto da pastora Fulana de Tal.

Se pensarmos nos principais componentes da igreja, iremos nos lembrar de Cristo, seu fundador e cabeça. A Cabeça nos remeterá ao seu corpo espiritual, a igreja dita universal ou invisível. Por fim, cogitaremos a igreja local, a ekklesia que acontece quando um grupo de crentes que se reúne em determinado lugar.

O descrente alcançado pelo evangelho deveria ser apresentado antes de tudo a Cristo, mas a primeira pessoa que ele conhece ao passar diante de um desses estabelecimentos é o “pastor”, “missionário” ou “apóstolo” titular do CNPJ.

Ele deveria em seguida ser introduzido no organismo vivo para se integrar como membro, mergulhado na sublimidade do batismo espiritual que nos faz um com o Senhor. Em vez disso, depara com um nome esquisito numa placa (ou com um nome tradicional, não faz diferença).

O convertido deveria logo depois ser conscientizado de que pertence a um povo, não um lugar (daí a expressão bíblica “a igreja que se reúne na casa de…”). Mas antes mesmo que exista povo, o templo já está ali, muito parecido com uma lojinha de 1,99. Depois disso, o novo crente confundirá templo com igreja pelo resto da vida. Ou com uma lojinha, se não ficar atento.

O líder religioso antes de Cristo. A instituição legal antes da igreja. O prédio antes do povo. Em todas essas coisas, o humano antes do divino. Eis a inversão.

As denominações são a nossa “monarquia”

Não é de hoje que vem a minha preocupação com a igreja representadas em suas inúmeras denominações. Desde muito tempo, tenho a convicção que elas não representam a vontade de Deus, assim como a monarquia adotada pelo Israel antigo ia de encontro à sua vontade (leia aqui). A degeneração dos sistemas eclesiásticos é cada vez mais preocupante, porém, independentemente de uma denominação estar corrompida ou ser “igreja séria”, deveria nos preocupar mais o fato de estarmos fora da vontade de Deus há tanto tempo. Pensando nisso, resgatei do jornal O Assembleiano, edição de janeiro de 1991, este texto que fez parte de um estudo em série sobre a igreja, da autoria desta ovelhinha:

Na mesma carta em que Paulo revela o mistério da Igreja há um apelo do após­tolo no sentido de manter a unidade do Corpo de Cristo: “Não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos” (Ef 4.17), querendo dizer que os crentes não devem agir “como meninos, agitados de um lado para outro, e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos ho­mens, pela austúcia com que induzem ao erro” (v. 14).

Os apóstolos sempre se preocuparam em manter a unidade da Igreja. Quando o evangelho passou a ser pregado aos gen­tios e os primeiros não judeus passaram a fazer parte da comunidade cristã foi preciso convocar um concilio em Jerusalém, a fim de que uma grande divisão não ocorresse já no princípio da expansão da Igreja (At 15). Paulo também advertiu à igreja em Co­rinto sobre as facções que estavam surgindo em seu meio.

Unidade, porém, não significa uma igreja dominando todas as outras, como matriz e filiais. Deus quer a preservação da unidade espiritual e a manutenção da sua doutrina. A igreja planejada por Cristo tem estrutura suficiente para comportar opiniões diferentes (ver Rm 14.1-12), como também culturas heterogêneas (Mt 8.11). Portanto, os facciosos (isso também inclui as denominações) são plenamente dispen­sáveis.

Infelizmente, a maioria de nós, cris­tãos, pertence a grupos separatistas dentro do cristianismo, uma situação não desejada no plano original de Deus, mas suportada por ele, assim como continuou ao lado de Israel, quando este exigiu a troca do gover­no teocrático pelo monárquico. Deus consi­derou a atitude dos israelitas um ato de rejeição à sua pessoa, mas isto não impediu que ele escolhesse, orientasse e até aben­çoasse os reis não desejados (1Sm 8.7). Esse é exatamente o quadro de nossos dias: Deus operando e abençoando numa situação con­trária à sua vontade.

Sobre essa situação, A. Gibert [autor do livro Igreja ou assembleia de Deus (que não é a denominação)] indaga: “Que fazermos, pois? Acaso deveríamos reconstituir a Igreja do princípio dos dos apóstolos?”. Ele mesmo responde: “Se­ria impossível. É um fato constatado em toda a Bíblia que Deus não restaura integralmente o que o homem arruinou”.

Concordo com Gibert em que uma desconstrução do atual sistema eclesiástico seja impraticável, por diversos motivos. Todavia, há um fenômeno recente que não pode ser ignorado: muita gente já está abandonando as igrejas identificadas por placas e retornando ao projeto original de Cristo, e as denominações terão de lidar com isso. Voltaremos ao assunto.