CGADB tem hoje eleição histórica

Hoje a CGADB (Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil) vive um momento histórico. Por alguns motivos.

O primeiro é que o pastor José Wellington Bezerra da Costa, que há 29 anos vem se mantendo na presidência da instituição, está deixando o cargo, que ocupava desde maio de 1988. O motivo é a idade — ele está com 82 anos. Contudo, o plano é manter a liderança da entidade maior das Assembleias de Deus em família, porque o candidato da situação é o filho dele, Wellington Jr., de 63 anos.

Isso leva ao segundo motivo da importância histórica da eleição de hoje, que já está em andamento. Existe a possibilidade de essa hegemonia ser interrompida nesta data, embora não pelas alternativas da cédula de votação. O principal adversário é o pastor Samuel Câmara, que tentou derrotar os Wellington desde a década de 1990. O outro candidato é Cícero Tardim, da convenção paranaense, pouco conhecido no cenário nacional e considerado um azarão.

O terceiro motivo é que pela primeira vez a votação é online. Uma empresa, a Scytl do Brasil, foi contratada para gerenciar o voto eletrônico dos ministros assembleianos, responsável, entre outros serviços, pelo fornecimento de sistema eletrônico eleitoral via Internet, alocação de infraestrutura para sua execução, carga de dados e monitoramento das eleições eletrônicas. Para estar apto a votar, cada ministro deveria informar um e-mail e um telefone válido, e por um desses meios receberia a senha a partir do dia 10 de março deste ano.

No entanto, ao longo do processo foram detectadas inúmeras irregularidades, como inscrição de ministros mortos, desligados e inadimplentes e outras falhas gritantes, como e-mails e telefones inexistentes e duplicados, o que veio a resultar em mais de 10 mil inscrições suspeitas. Não bastasse isso, a candidatura de Wellington Jr. também foi contestada, por não ter se desligado em tempo hábil da função de presidente da Casa publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), como manda o estatuto .

Esses fatos deram início a uma verdadeira batalha de liminares e ações judiciais que, mesmo agora, com as eleições em pleno andamento, não parecem resolvidas. Há evidências de solene descumprimento das ordens judiciais por parte da CGADB e da Scytl. O espaço aqui não permite o registro de todos os detalhes dessa guerra de papel, mas o leitor poderá obter mais informações no blog do Daladier Lima, que fez uma excelente cobertura dos fatos e análises abalizadas, como conhecedor do assunto. Há notícias agora de que a própria eleição foi suspensa!

Enfim, não há dúvidas de que essa eleição vai passar passar para a história, mas não tanto por suas características inéditas. Acredito que ela será lembrada nos anais da denominação como a mais vergonhosa!

Opiniões sobre a opinião pública (reedição)

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Opinião pública

Ano de eleição é a época em que se põe em evidência a opinião pública. É quando os políticos vão para a TV declarar que o povo é inteligente (esperem o horário político). Sim, o povo troca o voto por dentadura porque é inteligente. Sim, o povo assiste entrevista com ex-BBBs porque é inteligente. Pense aí num terceiro exemplo, não vai ser difícil.

Lendo um romance policial, deparei com uma ótima tirada do detetive Lecoq, personagem de Émile Gaboriau, um francês que produzia esse tipo de literatura quando Arthur Conan Doyle ainda era criança: “Estou ansioso por aprender o sentimento geral, a opinião pública, como dizem, a fim de não confiar nela”.

Do escritor britânico Samuel Butler, pincei esta citação: “O público compra opiniões do mesmo modo que compra a carne ou o leite, partindo do princípio de que custa menos fazer isso do que manter uma vaca. É verdade, mas é mais provável que o leite seja aguado”.

Não custa nada também lembrar este exemplo bíblico de lucidez popular: “Solte Barrabás!”.

Tudo bem, de vez em quando o povo acerta. Afinal, em termos de escolha, é impossível errar sempre. Digamos então que a opinião pública erra por vocação e acerta por condescendência da estatística.

O mais preocupante é que essa opinião pública, que tem o dom alquímico de transformar cultura em mediocridade (ou será o contrário?) e consegue ditar, por exemplo, o conteúdo da TV, é que de fato elege os governantes. A única preocupação dos eleitos, depois de saquear o erário, é ir a público dizer que são inocentes ou perseguidos, afirmar que as promessas não cumpridas no atual mandato (por falta de verbas, quem diria?) serão cumpridas no próximo e lembrar, é claro, que o povo é inteligente o bastante para saber que isso é a mais pura verdade. Se ainda houver dúvidas, as dentaduras completam o serviço.