Breves notas sobre as palavras de Jesus: extratos da aula 27

Aos fariseus, sobre colher espigas e curar no sábado
Mateus 12.1-14 (Marcos 2.23—3.6; Lucas 6.1-11), ARC 

O texto em  estudo apresenta dois episódios relacionados com a questão do sábado. No primeiro, Jesus é questionado por permitir que os seus discípulos colham espigas num sábado para matar a fome. No segundo, Jesus é interrogado sobre a licitude de curar no sábado e, depois de responder aos seus oponentes, realiza uma cura nesse dia.

Naquele tempo, passou Jesus pelas searas, em um sábado; e os seus discípulos, tendo fome, começaram a colher espigas e a comer. E os fariseus, vendo isso, disseram-lhe: Eis que os teus discípulos fazem o que não é lícito fazer num sábado (v. 1-2).

  • Não há indicação de tempo nem de lugar desse incidente. Sabe-se apenas que os discípulos passavam por uma das “searas” ou plantações ao longo do caminho.
  • Só Mateus informa que os discípulos tinham fome. O costume de debulhar o trigo com as mãos e comer os grãos crus manteve-se até os tempos modernos. Os grãos também podiam ser assados. Não era considerado roubo cortar espigas para matar a fome. Mas a pessoa não podia, por exemplo, encher os bolsos de grãos e levá-los para casa. Além disso, a Lei determinava que os donos das plantações deixassem parte da produção sem ser colhida a fim de que os pobres pudessem abastecer a sua despensa (Lv 19.9-10; veja Rt 2.1-3). A ação dos discípulos aqui parece encaixar-se no primeiro caso, e os fariseus começaram a implicar com os discípulos porque eles faziam isso no sábado, o dia sagrado de descanso dos judeus.
  • A lei do sábado proibia todo tipo de trabalho (Êx 23.12; 31.13-14). No período interbíblico, surgiram os “escribas e fariseus”, e eles passaram a definir o que exatamente era trabalho e o que não era. A Lei dizia que comer não era trabalho (Êx 12.16) e proibia a colheita e a debulha no sábado, ou seja, que se trabalhasse no campo nesse dia. Mas não dizia nada sobre colher espigas para matar a fome. Os fariseus, porém, insistiam em que arrancar o trigo, como os discípulos estavam fazendo, era o equivalente a colher, e esfregá-lo com as mãos era o mesmo que debulhar. Para eles, era um ato ilícito, passível de apedrejamento.
  • Convém lembrar que a hostilidade a Jesus agora era mais aberta, e os lideres religiosos judeus estavam procurando motivos para incriminá-lo.

Ele, porém, lhes disse: Não tendes lido o que fez Davi, quando teve fome, ele e os que com ele estavam? Como entrou na Casa de Deus e comeu os pães da proposição, que não lhe era lícito comer, nem aos que com ele estavam, mas só aos sacerdotes? (v. 3-4).

  • Jesus lembra um fato ocorrido com Davi (1Sm 21.1-6). Nobe era uma comunidade sacerdotal, para onde o Tabernáculo fora transferido após a destruição de Siló (1Sm 4). Os pães da proposição (Lv 24.5-9) ficavam no Lugar Santo e eram substituídos toda semana e consumidos pelos sacerdotes, os únicos autorizados a fazer isso. Contudo, nada é mais sagrado que atender às necessidades humanas, que deviam ter prioridade sobre qualquer costume ou prática ritual, como era o caso dos discípulos aqui. Lembremos que Jesus veio à terra satisfazer a maior necessidade humana, a de salvação, “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23, ARA).
  • Nem mesmo o que consideramos mais sagrado (como as tradições teológicas, as declarações doutrinárias ou o regimento interno de uma denominação) pode ser usado em detrimento da alma humana. Quem foi criado numa denominação de viés mais legalista sabe quantas injustiças já foram cometidas por conta de se preservarem “costumes”, que na verdade são leis extrabíblicas, como as ordenanças dos fariseus, que Jesus condenava. Cristo veio mostrar que o cumprimento da Lei é o amor. Então, como matar alguém por colher trigo para comer? Como banir de uma instituição que abriga a igreja (povo) alguém que violou uma regra que Jesus jamais criaria?

Ou não tendes lido na lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado e ficam sem culpa? (v. 5).

  • Um fato notório era que justamente os sacerdotes trabalhavam no sábado, à vista de todo o povo (Nm 28.9-10), e não eram condenados por isso. É a prova bíblica de que toda regra tem exceção. Era uma impossibilidade o descanso dos sacerdotes no sábado porque os sacrifícios e certas atividades na Casa de Deus eram ininterruptos, determinados pelo próprio Deus. Ao trabalhar no sábado, portanto, eles estavam obedecendo a Deus, o que está longe de ser um pecado.
  • “Sábado” significa “repouso ou descanso”, mas a simples observância religiosa não proporciona descanso algum. Como se não bastasse, os fariseus ataram fardos adicionais às costas do povo (Mt 23.4). Isso é o oposto de descanso. Mas Jesus oferece descanso a todos os que se aproximarem dele (Mt 11.28).

Pois eu vos digo que está aqui quem é maior do que o templo (v. 6).

  • A instituição do Templo estava acima das interpretações dos fariseus e da autoridade dos sacerdotes. E Jesus afirma estar acima do Templo. Isso é uma nova declaração de sua divindade. O Templo abrigava a presença divina, mas Jesus era a Presença encarnada, “porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9; cf. Jo 10.30).
  • Observe-se que os fariseus, que se julgavam tão importantes são empurrados cada vez mais para baixo na cadeia alimentar. Eles são inferiores aos sacerdotes, que são inferiores ao Templo, que está abaixo de Jesus.

Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero e não sacrifício, não condenaríeis os inocentes (v. 7).

  • Convém atentar para os exemplos que Jesus utiliza. Ele apela para um rei (Davi), depois para os sacerdotes e agora para um profeta. Eram as classes mais respeitadas entre os judeus.
  • Jesus aqui está citando um texto dos Profetas (Os 6.6). Ele destacava a misericórdia (Mt 9.3). Afinal, Deus é misericordioso, e o seu povo deve demonstrar essa virtude (Mt 5.7). A ausência de misericórdia não pode ser substituída pela oferta de sacrifícios, ainda que numerosos. Os fariseus eram destituídos de compaixão. A fome dos discípulos não despertou neles nenhum sentimento compassivo nem o desejo de socorrê-los.

Porque o Filho do Homem até do sábado é Senhor (v. 8).

  • Jesus, naturalmente, está acima também daquelas classes de pessoas. Ele mesmo é Rei, Sacerdote e Profeta, porém “maior” que todos eles. Ele é “maior do que o templo” (Mt 12.6), “maior do que Jonas” (Mt 12.41) e “maior do que Salomão” (Mt 12.42). Essas declarações implicam que ele está acima de qualquer instituição, por mais sagrada e honrada. Sua superioridade ao sábado, portanto, é inquestionável.

 E acrescentou: O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado (Marcos 2.27).

  • O homem foi criado antes que existisse a complicada lei do sábado e não foi criado para ser vítima ou escravo dessa lei. As normas em torno da celebração do sábado foram criadas para que a vida humana fosse mais plena e melhor.
  • O sábado estabelece o princípio de que o ser humano precisa trabalhar, mas também descansar. É assim que ele é beneficiado. Se o dia de descanso se tornar um fardo também, onde está o benefício?

E, partindo dali, chegou à sinagoga deles. E estava ali um homem que tinha uma das mãos mirrada; e eles, para acusarem Jesus, o interrogaram, dizendo: É lícito curar nos sábados? E ele lhes disse: Qual dentre vós será o homem que, tendo uma ovelha, se num sábado ela cair numa cova, não lançará mão dela e a levantará? (Mateus 12.9-11).

  • Na seção anterior, os fariseus queriam saber se era lícito trabalhar no sábado. Aqui perguntam se era lícito curar no dia sagrado de descanso.
  • A tradição religiosa dizia só se podia ajudar alguém no sábado quando a vida da pessoa corria perigo. Quem ajudasse um doente no sábado era punido com apedrejamento. As escolas rabínicas mais radicais proibiam até que se consolasse um enfermo no sábado. Ou seja, aquela visitinha para dar uma força a um amigo doente era vista como sacrilégio pelos zelosos guardiães da Lei. A cura do homem da mão ressequida não era urgente. Na visão deles, portanto, Jesus estaria violando o sábado se o curasse.

Pois quanto mais vale um homem do que uma ovelha? É, por consequência, lícito fazer bem nos sábados (v. 12).

  • Aqueles mesmos homens, insensíveis aos semelhantes em dificuldades, não se incomodavam se o sábado fosse violado para salvar um animal. O trabalho de resgatar uma ovelha de um buraco era plenamente justificado.
  • Ao contrário do que sugere o politicamente “correto” nos dias de hoje, o ser humano é superior ao animal. Isso não significa que maus-tratos aos animais se justifiquem, mas que o ser humano tem precedência sobre eles. Na verdade, a tendência é a inversão de valores. Os fariseus matavam um ser humano por picuinhas, mas tinham pena de uma ovelha. Se era permitido fazer bem a um animal no sábado, muito mais correto seria ajudar um ser humano, que é portador da imagem de Deus. Mas nenhum argumento funcionaria com eles, porque eram obstinados (veja Mc 3.5).

Então disse àquele homem: Estende a mão. E ele a estendeu, e ficou sã como a outra. E os fariseus, tendo saído, formaram conselho contra ele, para o matarem (v. 13-14).

  • Os fariseus não cediam, mas ficaram sem argumento. O ato de misericórdia divina não os convenceu. Em vez disso, o ódio deles contra Jesus se intensificou, e ele se retiraram para tramar a morte de Jesus. Sem ninguém mais a contestá-lo, Jesus curou o homem.

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