Estudo sobre as palavras de Jesus: extratos da aula 26

A partir desta semana, estarei publicando os extratos das aulas que ministro toda quarta-feira a um pequeno grupo de São José dos Pinhais (PR). Como o título indica, consiste num estudo das palavras de Jesus registradas nos evangelhos. Os textos são escolhidos com base na Harmonia dos evangelhos (São Paulo: Vida, 2004), organizada por Robert Thomas e Stanley Gundry. Estou iniciando com a aula 27, mas na medida do possível publicarei o conteúdo das aulas anteriores. Você poderá acessar todo o material clicando em Estudos no menu aí em cima.

Aos judeus que queriam a confirmação de sua divindade
João 5.31-47
Esses versículos do capítulo 5 de João encerram o episódio da cura do paralítico no tanque de Betesda (v. 1-9a) e da polêmica gerada entre os judeus pelo fato de o milagre ter sido realizado num sábado (v. 9b-16). Em sua resposta, Jesus alegou possuir prerrogativas que eram próprias da Divindade (v. 17-29), o que converteu a fúria de seus oponentes em desejo homicida.
Jesus então resolveu apresentar três testemunhos que corroboravam as suas declarações. (O texto não deixa claro se ele o fez por exigência dos judeus ou voluntariamente. Talvez tenha apenas se adiantado à solicitação deles.) E aqui temos um fato interessante: segundo os estudiosos, o tema do testemunho, no sentido de “comprovação” ou “afirmação fundamentada”, ocorre mais de 50 vezes no evangelho de João (veja, por exemplo, 1.7-8; 3.18; 19.35). De fato, não é de surpreender num livro que se propõe nada menos que provar a divindade de um ser de carne e ossos.

Se eu testifico a respeito de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro (v. 31).
Obviamente, Jesus sabia que o seu testemunho era verdadeiro. Ele mesmo era a própria Verdade (Jo 14.6), e muitos criam nele. Contudo, ele sabia que uma declaração sobre si mesmo não seria suficiente para alguns.
De fato, não devemos crer apenas no que alguém diz. É disso que sobrevivem os vigaristas e os manipuladores. Quem já não caiu na conversa de alguém de boa lábia? O vigarista leva o dinheiro dos incautos. Mesmo culpado, o manipulador faz com que os seus ouvintes acreditem na versão dele e ainda os induz a se voltar contra as pessoas realmente prejudicadas. Da mesma forma, apenas com “o testemunho de si mesmos”, os televangelistas conseguem vender os seus produtos “ungidos”.
A ideia de que o testemunho de uma só pessoa não é verdadeiro era bem conhecida entre os judeus (Dt 17.6). O próprio Cristo valeu-se dessa lei (Mt 18.16), que também teve reflexos na igreja primitiva (2Co 13.1). Os critérios neotestamentários para a escolha de ministros evocam de maneira clara o testemunho da comunidade (1Tm 5.22; 1Tm 3.1-13; Tt 1.6-9).
Em suma, o que Cristo estava querendo dizer era: “Se eu apresentasse apenas o meu testemunho a respeito de mim mesmo, vocês teriam razão em me questionar”. Mas a exigência de seus opositores não era motivada por simples zelo pela verdade, porque eles já tinham todos os testemunhos de que precisavam, dos quais Cristo tratou de lembrá-los.

Outro é o que testifica a meu respeito, e sei que é verdadeiro o testemunho que ele dá de mim (v. 32).
É quase certo que esse “outro” é Deus Pai. Esse era o testemunho mais importante para Cristo, a autenticação inquestionável de seu ministério messiânico. Tratava-se, porém, de um testemunho interior, que naturalmente não podia ser comprovado por ninguém, pois nenhum ser humano tem acesso à esfera do relacionamento entre Pai e Filho. (Esse assunto será discutido quando estudarmos João 8.13ss.)

Mandastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade. Eu, porém, não aceito humano testemunho; digo-vos, entretanto, estas coisas para que sejais salvos. Ele era a lâmpada que ardia e alumiava, e vós quisestes, por algum tempo, alegrar-vos com a sua luz (v. 33-35).
A mensagem de João Batista consistia em anunciar a chegada do reino messiânico e na necessidade de arrependimento como preparação para essa nova era (Mt 3.2).
Não foi um acontecimento fortuito. Os líderes religiosos de Israel conheciam as Escrituras do Antigo Testamento e aguardavam o “Elias” que viria restaurar todas as coisas (Ml 4.5; Mt 17.10-13).
Eles conheciam João e seu ministério, chegaram a interrogá-lo sobre a sua missão (“mandastes mensageiros”; veja Jo 1.19-24) e até simpatizaram com ele no início (“quisestes, por algum tempo, alegrar-vos com a sua luz”). Mas se recusaram a aceitar a mensagem de arrependimento e se afastaram dele na hora de assumir um compromisso sério com o Reino. É a tendência do ser humano de, contra todas as evidências, só acreditar naquilo que deseja. Jesus então apresenta o testemunho das obras que realizava.

Mas eu tenho maior testemunho do que o de João; porque as obras que o Pai me confiou para que eu as realizasse, essas que eu faço testemunham a meu respeito de que o Pai me enviou (v. 36).
As obras de Jesus eram os seus milagres ou “sinais”. João incluiu em seu evangelho sete “sinais” como prova de que Jesus era o Filho de Deus (Jo 20.30-31): transformação de água em vinho (2.1-10); cura do filho do funcionário do rei (4.46-54); cura do paralítico do tanque de Betesda (5.1-9, o milagre que gerou a presente discussão); multiplicação de pães e peixes (Jo 6.1-13); caminhada sobre o mar da Galileia (Jo 6.16-21); cura do cego de nascença (Jo 9); ressurreição de Lázaro (Jo 11.1-46).
Jesus deixou claro que as suas obras eram divinas (v. 17-20; 14.10). E, segundo o testemunho de Nicodemos, as autoridades religiosas de Israel reconheciam que os milagres de Jesus o qualificavam com o alguém “vindo da parte de Deus” (Jo 3.2).
Depois de apresentar o testemunho de João Batista e de suas obras, Jesus apela para o testemunho das Escrituras.

O Pai, que me enviou, esse mesmo é que tem dado testemunho de mim. Jamais tendes ouvido a sua voz, nem visto a sua forma. Também não tendes a sua palavra permanente em vós, porque não credes naquele a quem ele enviou. Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida (v. 37-40).
Os judeus tinham profunda reverência pela Palavra escrita, especialmente pela Lei, que lhes fora outorgada por intermédio de Moisés. O Antigo Testamento dá testemunho de Cristo, mas os responsáveis por preservar e interpretar as Escrituras não foram capazes de reconhecer os sinais dos tempos nem o próprio Messias (Lc 12 54-56). O motivo foi não terem permitido que a Palavra gerasse fé (v. 38). Foi uma rejeição deliberada.

Eu não aceito glória que vem dos homens; sei, entretanto, que não tendes em vós o amor de Deus (v. 41-42).
Os milagres de Jesus manifestavam a sua glória (Jo 2.11). Era uma glória intrínseca, que não lhe fora conferida por ninguém. O ser humano só possui alguma glória quando alguém a concede, e ela pode desaparecer tão rápido quanto surgiu. Entre os escravos trazidos da África para a América, havia muitos que ocupavam posições importantes em suas nações de origem, mas aqui não tinham importância alguma, porque eram considerados simples mercadoria pelos seus senhores. Cristo, que possuía glória eterna, não iria trocá-la por uma honra efêmera. Mesmo humilhado na cruz, a pior desonra que alguém podia receber, ele não perdeu sua glória (veja Mc 14.62).

Eu vim em nome de meu Pai, e não me recebeis; se outro vier em seu próprio nome, certamente, o recebereis. Como podeis crer, vós os que aceitais glória uns dos outros e, contudo, não procurais a glória que vem do Deus único? (v. 43-44).
Aqui há uma ironia ligada diretamente ao v. 31. A despeito de todos os testemunhos favoráveis, os antagonistas de Jesus recusaram-se a crer que ele era o Messias. E agora Jesus afirma que eles acabarão acreditando num messias falso que não terá outras credenciais a não ser as próprias alegações. Cairão justamente no erro que supostamente queriam evitar com Jesus. Havia falsos cristos naquele tempo, que conseguiam enganar o povo. Talvez haja aqui uma referência ao Anticristo, que também enganará Israel “com todo o poder, e sinais, e prodígios de mentira” (2Ts 2), isto é, com evidências falsas.

Não penseis que eu vos acusarei perante o Pai; quem vos acusa é Moisés, em quem tendes firmado a vossa confiança. Porque, se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito. Se, porém, não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras? (v. 45-47).
Jesus, como Juiz (v. 27), não teria dificuldade em condenar os que não criam. Mas nem precisará fazer isso. O próprio Moisés, a quem eles veneravam, irá testemunhar contra eles no Juízo Final. Como Paulo afirma: “Todos os que com lei pecaram, mediante a lei serão julgados” (Rm 2.12).